Até quando vamos continuar sofrendo por aquilo que já passou?

Até quando vamos continuar sofrendo por uma perda, por uma situação que já não existe ou por algo que aconteceu em nossa vida e não foi como esperávamos?

Não sei se existe uma resposta simples para essa pergunta, mas ela me veio com força depois de ler uma passagem bíblica esta semana.

É a história do profeta Samuel e do rei Saul.

Samuel havia ungido Saul como rei de Israel. Havia uma relação de confiança, de expectativa, talvez até de afeto. Samuel havia participado daquele momento importante da história de Saul e, mesmo depois dos erros cometidos pelo rei, continuava sofrendo com aquilo.

Até que Deus lhe faz uma pergunta bastante direta:

“Até quando você vai ficar lastimando por causa de Saul?” (1 Samuel 16:1).

Essa frase me chamou muito a atenção.

Não foi “Samuel, não fique triste”.

Não foi “Samuel, esqueça o que aconteceu”.

Não foi “Samuel, tudo bem, fique aí mais um pouco”.

Foi: “Até quando?”

É uma pergunta que incomoda.

E talvez justamente por isso seja tão necessária.

Até quando?

Todos nós, em algum momento, precisamos fazer essa pergunta a nós mesmos.

Até quando vou continuar sofrendo por aquilo que já aconteceu?

Até quando vou ficar imaginando como as coisas poderiam ter sido?

Até quando vou esperar que o passado mude?

Até quando vou continuar preso a uma pessoa que já foi embora?

Até quando vou lamentar uma oportunidade que perdi?

Até quando vou me definir por uma derrota?

Não estou dizendo que devemos simplesmente esquecer a dor.

Isso seria uma enorme falta de sensibilidade.

Há dores que precisam ser sentidas. Há perdas que precisam ser choradas. Há acontecimentos que levam tempo para serem compreendidos.

Somos humanos.

Mas existe uma diferença entre viver a dor e morar nela.

E talvez esse seja um dos grandes problemas.

Às vezes, aquilo que inicialmente era apenas uma dor passa a se tornar uma identidade.

A pessoa já não diz apenas “eu sofri”.

Ela passa a viver como alguém que foi abandonado, traído, derrotado, injustiçado.

E, sem perceber, continua organizando a própria vida em torno de algo que já aconteceu.

Deus não pediu que Samuel esquecesse Saul

Essa talvez seja uma das coisas mais interessantes dessa passagem.

Deus não está diminuindo o sofrimento de Samuel.

Ele apenas está dizendo que há um momento em que é preciso levantar.

Depois de perguntar “até quando?”, Deus dá uma ordem a Samuel:

“Encha seu frasco de óleo e vá.”

Vá.

Essa palavra também me chama a atenção.

Samuel não recebeu uma longa explicação sobre tudo o que havia acontecido.

Ele recebeu uma missão.

Havia algo novo esperando por ele.

Enquanto Samuel continuasse olhando para Saul, talvez não conseguisse enxergar Davi.

E aqui existe uma reflexão que considero muito importante para a nossa vida.

Às vezes, ficamos tanto tempo olhando para aquilo que perdemos que não conseguimos perceber aquilo que ainda podemos encontrar.

O problema de ficar olhando para trás

É claro que olhar para trás pode ser importante.

Precisamos aprender com o passado.

Precisamos compreender nossos erros.

Precisamos reconhecer aquilo que fizemos e aquilo que fizeram conosco.

O problema não é olhar para trás.

O problema é não conseguir mais olhar para frente.

Há pessoas que passaram anos falando da mesma decepção.

Anos reclamando da mesma injustiça.

Anos esperando uma reparação.

Anos tentando entender por que determinada pessoa fez aquilo.

E talvez algumas dessas perguntas nunca tenham resposta.

Talvez precisemos aceitar que certas coisas simplesmente aconteceram.

Não porque foram boas.

Não porque não doeram.

Mas porque já fazem parte do passado.

E passado não se muda.

Gratidão não é fingir que tudo deu certo

Essa é uma questão sobre a qual também reflito em Princípios da Vida.

Costumamos falar muito sobre fé.

“Eu tenho fé.”

“Eu confio em Deus.”

Mas será que uma das maiores demonstrações de fé não seria justamente conseguir agradecer mesmo quando as coisas não acontecem como queríamos?

Gratidão não significa dizer que tudo foi bom.

Não significa agradecer pela dor como se a dor não tivesse doído.

Significa conseguir olhar para a própria vida e dizer:

“Não era isso que eu queria. Mas eu ainda confio.”

É muito diferente.

Porque confiar em Deus quando tudo acontece exatamente como planejamos talvez não seja tão difícil.

A verdadeira fé, muitas vezes, aparece quando precisamos caminhar sem compreender completamente o caminho.

Deixar ir também é uma forma de amadurecer

Em Deixar Ir – O Caminho do Desapego, existe uma reflexão muito próxima dessa.

A dificuldade de deixar ir.

E como é difícil deixar ir aquilo que amamos, aquilo que desejamos ou aquilo que imaginávamos que seria para sempre.

Às vezes, não conseguimos abandonar uma situação porque acreditamos que, ao deixá-la ir, estaremos dizendo que ela não foi importante.

Mas não é assim.

Podemos amar e deixar ir.

Podemos sentir saudade e continuar.

Podemos reconhecer a importância de alguém em nossa história sem exigir que essa pessoa continue fazendo parte do nosso presente.

Podemos olhar para uma fase da vida com gratidão e, ainda assim, aceitar que ela terminou.

Desapego não é falta de amor.

Em muitos casos, é justamente uma forma madura de amar a própria vida.

Talvez você precise se perguntar: “E agora?”

Não sei o que você está vivendo neste momento.

Talvez seja uma perda.

Talvez seja uma frustração.

Talvez seja o fim de um relacionamento.

Talvez seja um projeto que não deu certo.

Talvez seja uma oportunidade que passou.

Talvez seja simplesmente uma realidade que você imaginava que seria diferente.

Mas, seja o que for, talvez a pergunta já não deva ser apenas:

“Por que isso aconteceu comigo?”

Talvez seja hora de perguntar:

“E agora, o que eu vou fazer com isso?”

Foi o que aconteceu com Samuel.

Ele poderia continuar lamentando Saul.

Mas Deus tinha outra coisa para ele fazer.

Havia um novo rei para ungir.

Havia uma nova etapa.

Havia uma missão.

E talvez isso também aconteça conosco.

Não sabemos o que Deus tem pela frente.

Mas sabemos que não podemos permanecer para sempre paralisados pelo que ficou para trás.

Até quando você vai ficar aí?

Essa pergunta não é uma cobrança.

É um convite.

Você não precisa deixar de sentir.

Não precisa fingir que não doeu.

Não precisa transformar uma perda em uma falsa história de superação.

Mas, em algum momento, talvez seja necessário limpar as lágrimas, levantar e perguntar:

Até quando?

Até quando vou continuar vivendo em função disso?

Até quando vou permitir que esse acontecimento determine quem eu sou?

Até quando vou deixar que aquilo que terminou impeça aquilo que pode começar?

Samuel recebeu uma ordem muito simples:

“Encha seu frasco de óleo e vá.”

Talvez seja isso que precisamos ouvir algumas vezes.

Não porque a nossa dor não importa.

Mas porque a nossa vida continua.

Há coisas que já terminaram.

E há coisas que ainda precisam começar.

Talvez seja hora de deixar ir.

Talvez seja hora de agradecer pelo que foi.

Talvez seja hora de confiar.

E, principalmente, talvez seja hora de ir.

Porque enquanto continuamos olhando para aquilo que perdemos, podemos não perceber aquilo que Deus ainda está colocando diante de nós.

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