A cada geração, os mais velhos parecem acreditar que os jovens de seu tempo estão perdidos. Mas a história mostra que, entre muitos que apenas seguem as modas, sempre existem poucos dispostos a estudar, trabalhar, criar e transformar o mundo.
“Farmar aura” virou uma expressão popular para descrever comportamentos que buscam chamar atenção, transmitir determinada imagem ou simplesmente participar de uma tendência. Como toda moda, provavelmente também passará.
Mas existe uma questão mais interessante por trás disso: será que a juventude de hoje realmente está pior do que as gerações anteriores?
A pergunta não é nova.
A velha reclamação sobre os jovens
Ao longo da história, é possível encontrar registros de adultos criticando a juventude de seu tempo. Jovens seriam preguiçosos, indisciplinados, desinteressados ou incapazes de preservar os valores e as conquistas das gerações anteriores.
Esse fenômeno aparece em diferentes períodos históricos e culturas. Em outras palavras, a ideia de que “a juventude de hoje está perdida” é muito mais antiga do que as redes sociais, os smartphones ou qualquer tendência contemporânea.
Em 2020, ao escrever sobre esse tema no livro Tsedacá, dediquei um capítulo à reflexão sobre aqueles que são “poucos, mas que fazem toda a diferença”.
A ideia continua atual.
O progresso nunca dependeu da maioria
Quando olhamos para a história da humanidade, percebemos uma contradição interessante.
Apesar de todos os problemas que ainda existem — violência, criminalidade, corrupção e desigualdades, a humanidade alcançou avanços extraordinários em comparação com grande parte do passado.
Tecnologia, medicina, comunicação, transporte, produção de alimentos, expectativa de vida e acesso ao conhecimento transformaram profundamente a experiência humana.
E nada disso aconteceu porque toda a sociedade caminhou simultaneamente na mesma direção.
Grande parte das transformações veio de pessoas que estavam dispostas a fazer algo diferente.
Foram indivíduos que estudaram quando seria mais fácil desistir. Que insistiram quando ainda não havia reconhecimento. Que criaram soluções quando ninguém acreditava que fossem possíveis.
São poucos, mas fazem toda a diferença.
Entre a moda e o propósito
Por isso, talvez seja um erro olhar para uma tendência como “farmar aura” e concluir que toda uma geração está condenada à superficialidade.
Uma coisa é observar determinados comportamentos e questioná-los. Outra, bastante diferente, é transformar esses comportamentos em uma sentença sobre todos os jovens.
A juventude não é homogênea.
Ao mesmo tempo em que existem jovens preocupados apenas com aprovação social, entretenimento ou tendências passageiras, existem outros estudando, trabalhando, empreendendo, pesquisando e desenvolvendo ideias que ainda nem conseguimos dimensionar.
E existe ainda um terceiro grupo: aqueles que hoje parecem estar apenas vivendo uma fase de imaturidade, mas que podem amadurecer e encontrar um propósito.
Talvez aquele jovem que hoje parece completamente desinteressado possa, alguns anos depois, criar uma empresa inovadora.
Talvez outro descubra uma solução para um problema que parecia impossível.
Talvez alguém que hoje ainda não sabe exatamente o que quer encontre, com o tempo, uma área na qual possa contribuir de maneira significativa.
O futuro não está pronto. Ele está sendo construído por pessoas que ainda estão descobrindo quem são.
O papel de quem decide pagar o preço
Existe, porém, uma diferença importante entre simplesmente esperar que o futuro aconteça e decidir participar da sua construção.
As grandes transformações normalmente exigem esforço, disciplina, estudo, paciência e disposição para fazer coisas que nem sempre são imediatamente recompensadoras.
É nesse ponto que a reflexão deixa de ser apenas sobre a juventude e passa a ser sobre cada indivíduo.
Não é necessário ser a pessoa mais brilhante da sala. Nem ter todas as respostas.
Mas é preciso estar disposto a aprender.
É preciso aceitar que determinadas conquistas exigem tempo.
É preciso compreender que reconhecimento, conhecimento e experiência não aparecem de um dia para o outro.
E, principalmente, é preciso escolher o que fazer com o próprio potencial.
Poucos, mas que fazem a diferença
Talvez a maior lição da história seja justamente essa: não precisamos que todos sejam extraordinários para que a sociedade avance.
Em diferentes épocas, sempre existiram pessoas acomodadas, pessoas distraídas, pessoas que simplesmente seguiram a corrente e pessoas que não tinham interesse em transformar nada.
Mas também sempre existiram aqueles poucos que decidiram fazer diferente.
Foram esses poucos que criaram, descobriram, pesquisaram, empreenderam, ensinaram e abriram caminhos para que milhões de outras pessoas pudessem viver melhor.
É por isso que, apesar de todos os problemas do presente, existe motivo para olhar para o futuro com esperança.
A questão não é se a juventude atual está “perdida”.
A questão é: quem serão os poucos que decidirão não apenas acompanhar o seu tempo, mas contribuir para transformá-lo?
Se você é jovem, talvez essa seja uma boa pergunta para fazer a si mesmo.
Você pode simplesmente seguir cada tendência que aparecer.
Ou pode aproveitar essa fase da vida para estudar, experimentar, construir, errar, aprender e descobrir aquilo que pode fazer de você alguém capaz de contribuir para algo maior.
No fim das contas, as modas passam.
As gerações mudam.
E as reclamações sobre os jovens provavelmente continuarão existindo.
Mas, em meio a tudo isso, sempre haverá aqueles poucos que fazem toda a diferença.
Que você seja um deles.